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9/9/2010
Fonte: Valor Econômico
Desde que os primeiros detalhes do que está sendo chamado de uma das maiores operações de venda de ações global do ano começaram a ser divulgados, no início do mês, o dólar já caiu 1,3%.
A expectativa de que virão de investidores estrangeiros de 20% a 30% dos R$ 128 bilhões que a Petrobras vai levantar deu impulso adicional à tendência de queda da moeda. Isso pode significar uma enxurrada de US$ 15 bilhões a US$ 20 bilhões no mercado, entre o fim do mês e o início de outubro.
Um volume de dólares desse porte seria, de fato, suficiente para derreter a cotação. Não se acredita, portanto, que o Banco Central (BC) permitiria tal fluxo no mercado. Na venda de ações do Santander, em 2009, uma operação bem menor, que girou US$ 14,1 bilhões, o BC comprou as divisas diretamente, sem que os dólares entrassem no mercado. Não se espera que outra coisa aconteça desta vez.
Há outros motivos para se esperar que a cotação do dólar, embora recue em um primeiro momento, não despenque sem piso. Um deles é que parte dos recursos captados pela Petrobras serão destinados à importação de equipamentos que serão usados na exploração do petróleo da camada do pré-sal, o que enxugará parte das divisas recebidas.
Outro motivo é a expectativa de que os bancos aproveitem esses dólares que vão entrar no mercado para zerar as volumosas posições vendidas que possuem. Desde março, os bancos vêm apostando na apreciação do real e acumulando posições vendidas de dólar. Esses dólares têm sido abocanhados pelo BC, que mantém as compras mesmo quando o fluxo cambial é negativo, como nas últimas semanas, sem que nem assim a cotação do dólar suba. A posição vendida dos bancos no mercado a vista é de quase US$ 14 bilhões e seria coberta com folga pelos dólares obtidos pela venda das ações da Petrobras. Para alguns especialistas, interessaria portanto aos bancos manter a cotação do dólar em queda para zerar a posição vendida a baixo custo.
O problema dos exportadores está longe, porém, de ser resolvido por esses movimentos de curto prazo, típicos de mercado. O Brasil assumiu, há alguns anos, a posição de "queridinho" dos investidores internacionais. O sucesso da estabilização econômica, a perspectiva de crescimento e o bom retorno dos juros altos tornaram o país alvo certo no fluxo de capital internacional, o que contribui para a apreciação do real.
O balanço de pagamentos comprova isso. Em julho, a conta de capital e financeira ficou positiva em US$ 6,6 bilhões, acumulando no ano US$ 48,5 bilhões, quase o dobro dos US$ 24,6 bilhões de igual período de 2009, basicamente por causa dos investimentos. O investimento direto estrangeiro foi de US$ 2,6 bilhões em julho (US$ 14,7 bilhões no ano); e o investimento em carteira foi de US$ 5,9 bilhões (US$ 28,9 bilhões no ano, bem acima dos US$ 9,3 bilhões de 2009).
Não é por outro motivo que o real ganhou importância no mercado internacional de câmbio. Desde a crise internacional, em 2007, os negócios com reais no mercado global de moedas quase dobraram, de 0,4% para 0,7% do total, com US$ 28 bilhões transacionados por dia em um mercado que movimenta US$ 4 trilhões. O real é a moeda mais negociada em derivativos no mundo, depois do dólar.
Para o exportador, resta a esperança de que o governo ponha em prática o apoio prometido em maio. Naquele mês foi divulgado um pacote com medidas tributárias e financeiras para estimular as exportações. A maior parte delas não saiu do papel, como a Empresa Brasileira de Seguros (EBS) - o governo desistiu da ideia e em seu lugar criará uma agência.
Agilizar a devolução dos créditos de impostos cobrados sobre produtos exportados é uma das poucas promessas cumpridas, ainda assim parcialmente. Desde agosto, os exportadores podem pedir a devolução acelerada de até 50% dos créditos do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e do PIS/Cofins referentes a exportações realizadas entre abril e junho. Nas exportações feitas entre julho e setembro, o ressarcimento só poderá ser pedido em outubro. Os outros 50% dos impostos pagos indevidamente serão recebidos no prazo habitual, que pode chegar a cinco anos. Ao lançar o pacote, o governo havia se comprometido a restituir 50% dos créditos de impostos em 30 dias.
Editorial