Dólar tem alta de 53% desde piso

O dólar voltou a subir ontem, 2,7%, para R$ 2,39, com a maior aversão ao risco e a piora nos indicadores de atividade nos países ricos

Fonte: Cristiane Perini Lucchesi – Valor Econômico

O dólar voltou a subir ontem, 2,7%, para R$ 2,39, com a maior aversão ao risco e a piora nos indicadores de atividade nos países ricos. É uma alta de 53,3% em relação ao seu nível mínimo do ano, em 1º de agosto. A dificuldade de alongamento de prazos na rolagem das posições vendidas em câmbio do Banco Central por meio dos swaps cambiais é mais um motivo de pressão, além da falta de crédito em dólar que se agrava no final do ano por causa da necessidade de fechamento dos balanços de fundos e bancos com menor exposição ao risco.

A pouca disponibilidade de linhas à exportação e a pequena disposição dos exportadores em ingressar com seus dólar no Brasil fizeram com que na segunda semana de novembro a diferença entre o total exportado pelo país e o câmbio fechado para exportação chegasse a US$ 990 milhões. Foram exportados US$ 4,356 bilhões entre o dia 10 e 14, na comparação com os US$ 3,366 bilhões que os exportadores venderam no mercado de câmbio interno brasileiro, segundo os números divulgados ontem pelo BC. No acumulado deste mês até o dia 14, os exportadores deixaram fora do país US$ 2,79 bilhões da receita com exportação, ou 33%. Parte incerta do total foi usado para pagar dívidas, dada a dificuldade na rolagem. O desmonte de posições alavancadas vendidas em dólar no mercado futuro e a montagem de posições líquidas apostando na desvalorização do real de US$ 13,455 bilhões dos investidores estrangeiros, um recorde histórico, contribuem para agregar pressão.

À tarde, o BC vendeu um total estimado em US$ 340 milhões no mercado à vista. Pela manhã, entrou agressivamente oferecendo linhas de crédito em dólar - vendeu US$ 1,07 bilhão com compromisso de recompra. As duas transações impactam as reservas internacionais. As vendas à vista impactam as reservas pelos conceitos de liquidez internacional e de caixa. As vendas com compromisso de recompra só impactam as reservas pelo conceito de caixa, que estavam a US$ 196,484 bilhões no dia 14, uma queda de 4,85% na comparação com os níveis de setembro. As reservas pelo conceito de liquidez internacional estavam a US$ 204,666 bilhões no dia 14, seu nível máximo.

O BC continuou ontem a rolagem dos US$ 5,4 bilhões em swaps cambiais que vencem no dia 1º de dezembro, mas não conseguiu alongar prazos. Colocou em maior volume contratos para vencimento em janeiro e março de 2009. Não conseguiu vender a taxas aceitáveis os contratos mais longos, de vencimento em outubro de 2009, e colocou só 200 contratos dos 11.000 ofertados para janeiro de 2010. O BC vendeu US$ 1,251 bilhão em swaps cambiais, elevando o total rolado ontem e anteontem a US$ 2,683 bilhões. Essas transações não afetam as reservas cambiais, mas têm impacto na dívida pública líquida. A autoridade monetária colocou mais US$ 224,1 milhões em swaps novos, de vencimento em fevereiro de 2009. Totalizou vendas de US$ 2,9 bilhões em linhas, swap e mercado à vista.

Em e-mail a esta coluna, o ex-presidente da Sobeet e professor do Departamento de Economia da PUC/SP Antonio Corrêa de Lacerda, hoje também na Siemens, defendeu a "política cambial" do BC. Segundo ele, interessa ao Brasil "uma certa" desvalorização cambial, "desde que controlada". Para ele, "é preciso corrigir a valorização excessiva do real e o momento é favorável para fazê-lo, com a queda dos preços das commodities e, portanto, uma onda deflacionária mundial, ao contrário do que ocorreu nos últimos dois anos". Segundo ele, a desvalorização tem sido maior no Brasil, mas o real foi a moeda que tinha se apreciado mais nos últimos três anos. Há uma percepção entre executivos dirigentes de bancos que, passado o risco de crise sistêmica por causa dos derivativos de empresas, o BC iria mesmo puxar com menos vigor o dólar para baixo. E as pressões para cima não são poucas diante dos indicadores econômicos nos países ricos.

A ata do Fed, banco central americano, divulgada ontem, por exemplo, sinaliza mais um corte nos juros básicos americanos, hoje em 1% ao ano. O Fed reviu suas projeções para o crescimento do Produto Interno Bruto nos EUA de 1% a 1,6% neste ano feitas em junho para 0% a 0,3%. Para 2009, as estimativas passaram de aumento de 2% a 2,8% para queda de 0,2% a 1,1%. Os preços ao consumidor nos EUA tiveram queda de 1% em outubro, a maior em 61 anos, e a construção de novas moradias despencou: a contração de 4,5% em outubro é a maior em 50 anos. Enquanto isso, a taxa de desemprego no Brasil caiu para 7,5% em outubro, segundo o IBGE, na comparação com os 7,6% de setembro.

Cristiane Perini Lucchesi é repórter de Finanças. O titular da coluna, Luiz Sérgio Guimarães, está em férias.
E-mail: cristiane.lucchesi@valor.com.br