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6/2/2012
Fonte: Valor Econômico
A nova fase de expansão dos computadores equipados por algoritmos matemáticos capazes de realizar operações ultrarrápidas no mercado nasce a partir da gestação de fatores bem humanos.
Sob acirrada corrida dos investimentos em infraestrutura tecnológica, uma mão de obra cada vez mais qualificada nas corretoras e a disputa por clientes garantem a expectativa de que os negócios via alta frequência (HFT, High Frequency Trading na sigla em inglês) dobrem de tamanho rapidamente.
A média diária de volume realizado pelo chamado HFT fechou o ano passado representando 9,3% do dinheiro movimentado no segmento Bovespa (ações) - em janeiro de 2011 correspondia a 5,7%. Até o final de 2012, a fatia deve subir para aproximadamente 20%.
O ano será decisivo para os robôs. A principal novidade recai sobre a implementação do sistema unificado de processamento de transações, o PUMA Trading System, desenvolvido em parceria com a bolsa americana CME Group, de Chicago.
Durante o segundo semestre, o projeto - com custo total estimado em cerca de US$ 175 milhões - deve entrar em funcionamento. A modernização eletrônica vai duplicar a capacidade de processamento de ordens por segundo.
"A nova plataforma será capaz de processar 200 milhões de mensagens por dia e oferecerá uma média de latência de 1,1 milissegundo", declarou Edgar Perez, professor do Instituto Politécnico da Universidade de Nova York, em conversa com o Valor antes de viajar a São Paulo onde será palestrante de seminário sobre o tema nesta semana. Atualmente, no Brasil, o tempo de viagem (latência) de uma ordem ronda 10 milissegundos.
Atuando na produção de algoritmos desde 2007, antes da disseminação dos robôs na Bovespa, a empresa de engenharia financeira BLK sabe bem o potencial proporcionado por esse salto em capacidade.
"Com o PUMA, a alta frequência vai ficar mais rápida tanto para enviar ordens como para receber cotações. A bolsa está fazendo o papel dela em termos de tecnologia", opina Rogério Paiva, sócio diretor da BLK. Para ele, aparelhado dessa forma, o segmento tem condições de chegar a corresponder a 30% do volume de negócios da Bovespa.
No pano de fundo para tal crescimento, há o apetite pela renda variável brasileira. Investidores encontram hoje novas possibilidades de retorno em uma área ainda "virgem" na comparação com outros países.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a alta frequência já responde por 70% do mercado. A regra do jogo é liquidez. Fica difícil programar uma arbitragem em papel sem vasto livro de ofertas. Em outras palavras, o desenvolvimento do robô depende de mais olhos humanos operando no mercado.
A entrada voraz do estrangeiro na bolsa representa um sinal verde nesse contexto. Em janeiro, o fluxo externo na Bovespa registrou saldo recorde de R$ 7,168 bilhões, em movimento procedente à redução de 2% para zero do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) pago pelo aplicador de fora do país para atuar na bolsa.
Do outro lado do balcão, a própria BM&FBovespa tem endereçado esforços para atrair o cliente de alta frequência ao estimular a liquidez do mercado. Uma das iniciativas foi a introdução em 2011 do formador de mercado para opções sobre ações de dez empresas e sobre o Ibovespa.
A garantia de ordens diárias direcionadas aos derivativos elimina obstáculos para a participação do investidor. Isso reforça a musculatura da bolsa e permite que mais robôs possam atuar. Segundo as corretoras, hoje no Brasil há relativamente poucos ativos com a liquidez necessária para a atuação dos clientes de alta frequência. Na Bovespa, cerca de 50 ações - nos EUA são 500 ações.
A colaboração mais direta da BM&FBovespa em propagar a alta frequência foi dada por meio dos descontos em emolumentos (custo cobrado pela bolsa para negociação) baseados em volume negociado.
"Embora o HFT ainda tenha muito a avançar no Brasil para alcançar volumes de mercados desenvolvidos, o crescimento tem sido impressionante, graças à combinação de expansão dos acessos de alta frequência e políticas de descontos de custos, resultando em um aumento do volume negociado", afirmou Edgar Perez. "Custos podem quebrar os modelos de negócios em alta frequência, já que as margens da maioria das estratégias são muito pequenas", acrescentou.
Os números do ano passado provam a evolução. O giro financeiro médio diário da alta frequência na Bovespa saltou de R$ 533 milhões no quarto trimestre de 2010 para R$ 1,145 bilhão ao final de 2011 (9,3% do volume total).
Atento ao desenvolvimento do PUMA, grandes clientes começam a olhar para o Brasil, desencadeando uma disputa entre corretoras. A atual líder da alta frequência tanto em BM&F como em Bovespa, a Link Corretora, admite que a distância entre as concorrentes tende a diminuir ao longo do tempo também em ações.
"Tínhamos 98% do mercado de BM&F e hoje temos 75%", compara Daniel Mendonça de Barros, sócio-diretor da corretora que investiu, desde 2007, a quantia de R$ 20 milhões em tecnologia para alcançar o topo dos algoritmos. O número de clientes dobrou na passagem de 2010 para 2011 e hoje eles totalizam 15, incluindo grandes fundos americanos empenhados no co-location em ações (ver definição para co-location no texto abaixo).
"Esse ano há uma combinação de mais liquidez, o PUMA, o cenário macro estável, apetite por ações e chance de volta dos IPOs [ofertas iniciais de ações]", observa Mendonça de Barros.
A Ativa Corretora já elegeu a alta frequência como um dos vetores primordiais de crescimento nos próximos anos. Há dois meses a corretora repatriou Alexandre Goldemberg para gerenciar a área de produtos eletrônicos. Após quatro anos na Ativa, o executivo estava na Icap Brasil, onde foi responsável por montar sua estrutura de DMA (acesso direto ao mercado).
"Só em alta frequência o plano é ter 20 clientes a mais do que fechamos 2011. Conversamos com clientes institucionais do exterior", revelou Goldemberg antes de embarcar para Chicago, nos Estados Unidos, para prosseguir na missão. Na bagagem, investimentos entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão para atender às demandas de infraestrutura de novos interessados em robôs no país.