A questão cambial

Superado o período agudo da maior crise econômica internacional desde 1929, o mundo entra em uma fase de constatação da real dimensão e efeitos do estouro da bolha imobiliária americana, com adequação e ajustes à nova realidade.

Fonte: Brasil Econômico

No Brasil, o maior efeito da crise tem sido o impacto no volume das exportações, a partir de dois fatores: a apreciação do real ante o dólar e a diminuição significativa do comércio internacional.

O resultado foi o aumento das importações e déficit nas contas externas. Esse cenário perdurou em 2009. Embora a situação ainda seja de incertezas, aos poucos, os mercados internacionais começam a se recuperar.

Neste início de 2010, os números da balança comercial revelam a retomada das exportações, mas com volume de importações muito alto, ou seja, superávit comercial de apenas US$ 288 milhões no primeiro bimestre.

Além do problema cambial, as importações cresceram também porque o mercado brasileiro se expande mais rápido do que o internacional, afinal, nosso país foi pouco impactado pela crise. Mas devemos lembrar ainda que os primeiros meses do ano são, historicamente, de menor exportação.

Com o dólar bem abaixo dos R$ 2,00, as condições estão difíceis para os exportadores, e a importação, facilitada. Junto com um mercado interno mais atraente, a situação cambial praticamente forçou o empresariado a buscar preferencialmente o consumidor brasileiro.

Ora, então um dos focos da política econômica para 2010 e 2011 deve ser justamente uma política cambial que crie condições para que as empresas nacionais ampliem e diversifiquem a pauta de exportações.

É lógico que esse panorama pressupõe ações positivas como as que vêm sendo tomadas no âmbito do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, inclusive por meio da Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).

Mas é preciso uma atuação em duas vertentes: melhoria da competitividade do produto nacional e controle de capitais, que deve ser exercido substancialmente sobre o interesse especulador, com tributação regressiva do capital volátil.

Temos desenhada uma política industrial que precisa ganhar força na direção de uma pauta exportadora mais ambiciosa que a atual, restrita a alimentos, matérias-primas e manufaturas.

A produção nacional precisa se espraiar para exportação de bens de capital, serviços e, imprescindivelmente, tecnologia, setores que agregam valor, atuando na melhoria das contas externas. Esse caminho passa por investimentos em educação e tecnologia.

Além, claro, de uma reforma tributária que desonere produção e investimentos. O aumento da produção, com maior valor agregado, aliado à resposta às necessidades de infraestrutura via obras do PAC atenderá à demanda interna crescente e conquistará novos mercados, inibindo o discurso especulador dos juros altos.

A situação econômica do Brasil no atual contexto internacional é convidativa a uma projeção definitiva como potência mundial. É um caminho que está apenas começando, mas que não podemos deixar para depois.

Por José Dirceu