A crise é muito séria

Mas a crise não é apenas econômica. Ela se tornará uma crise social em poucos meses

Fonte: Sérgio Birchal – Para o Valor Econômico

Está passando da hora de se enfrentar a realidade. Isto não quer dizer, necessariamente, catastrofismo. Mas há certos momentos em que é preciso se defrontar com perspectivas difíceis e desagradáveis. Negar a realidade não irá diminuir nenhum destes incômodos. Muito pelo contrário. Irá trazer um maior descrédito para as autoridades num momento em que confiança é um artigo escasso.

A crise é séria. Muito séria. Os países mais ricos (Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha, França, Itália, Espanha e Japão) estão ou estarão em recessão econômica até o final deste ano. Além deles, a Coréia do Sul sente fortemente o impacto da crise. As economias da Austrália, da Rússia e da Índia passam por grandes dificuldades em função do seu principal negócio (minério e petróleo, respectivamente, para Austrália e Rússia) ou de seu principal cliente (caso dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha para a Índia). A Argentina já estava em crise.

Além disso, a gestação dessa crise é mais longa do que parece daqui do Brasil. Ela deu os seus primeiros (e discretos) sinais na forma de uma crise imobiliária nos Estados Unidos; a princípio, localizada fora dos principais centros urbanos. Logo ela se anunciou na disparada dos preços do petróleo e do minério de ferro no mercado internacional. A disparada de preços se deveu, principalmente, à perigosa proximidade entre demanda e oferta nestes mercados. Esses mercados ficaram muito vulneráveis a quaisquer ataques especulativos, como era de se esperar em situações como essas. A falta de transparência não nos permitiu observar com exatidão o que se passava na China. Os primeiros sinais de que alguma coisa não estava sólida com a "fábrica do mundo" foram os preços mais elevados dos bens produzidos naquele país. A China começava a exportar inflação. Pouco tempo depois a disparada da inflação mundial dos alimentos surpreendia a todos. Mal passado o susto dos alimentos, a crise financeira americana mostrou fôlego de sete gatos e se espalhou rapidamente como erva daninha.

Mas a crise não é apenas econômica. Ela se tornará uma crise social em poucos meses. Crise que começará pela demissão em massa (que, por sinal, já começou no sistema financeiro internacional). A esses se somarão os trabalhadores do setor industrial, rural e dos demais setores de serviços não-financeiros. Esta massa multi-facetada irá buscar socorro num governo com arrecadação minguante, num contexto de inflação crescente. A inflação irá corroer o poder aquisitivo da classe média mundial, já combalida pelas demissões ou pela sua constante ameaça. A perda de poder aquisitivo irá diminuir a demanda, a produção e a arrecadação. Sem falar dos já palpáveis estragos da crise de liquidez financeira nestas atividades. As perdas pessoais irão gerar um ambiente propício para o questionamento dos valores e papéis vigentes. É bom lembrar que boa parte desta classe média mundial, duramente afetada e com voz, está conectada à Web e vem assistindo a uma série de mudanças emblemáticas (tais como os atentados de 11 de setembro de 2001 ou a recente eleição de Barack Obama, para ficar em uns poucos exemplos). Ela é partícipe de uma revolução mais sutil: a do mundo virtual. O computador deixou de ser apenas uma eficiente máquina de calcular, de escrever e de enviar mensagens.
 
A partir do surgimento da Web, na primeira metade da década de 1990, ele se transformou na principal porta de acesso (assim como vem acontecendo com o telefone mais recentemente) do mundo virtual real (por mais paradoxal que essa afirmação possa parecer). A crise, também, é política. Novas potências econômicas e/ou militares reclamam um maior espaço nas decisões mundiais. As estruturas políticas atuais mostram-se anacrônicas. Pior ainda, não há evidências suficientes de que o New Deal tenha sido a solução para a crise de 1929. Portanto, há dúvidas quanto à eficácia do receituário neo keynesiano ora em voga. O atual socorro ao sistema econômico parece não ter fim!
Então, por que esta crise está demorando tanto a se concretizar para nós brasileiros?

Fizemos parte do dever de casa que precisávamos urgentemente fazer. Debelamos a inflação e melhoramos nossa balança comercial. Quitamos dívidas e acumulamos reservas de moeda de circulação internacional. Os ganhos oriundos dos vários anos de forte crescimento mundial e outras melhorias sociais e institucionais tornaram o nosso mercado mais interessante nos últimos anos. Nossas relações com os países mais ricos caíram em termos relativos. Nosso comércio com a China tornou-se muito mais relevante e a China mostra-se muito mais robusta do que o Brasil para enfrentar a crise. Ela poderá ser um pouco mascarada pelas festas de fim de ano, pelo décimo terceiro, pelo período de férias e pelo carnaval.

Mas com as águas de março não creio que ela não terá sido sentida por nós de forma mais contundente.
A crise é muito mais séria do que nos quer fazer crer as versões oficiais. Estão confundindo administração de expectativas com ocultação da realidade.

Sérgio Birchal é professor de Economia da UNA.